Você conhece o Live Steam? acredito que não! Introduzo você, caro leitor, a esse fantástico mundo. Ha um ramo do ferromodelismo (área do modelismo dedicada a reprodução de ferrovias, normalmente com trens elétricos em miniatura) chamado "Live Steam", que em tradução livre significa "Vapor Vivo". Consiste na reprodução de locomotivas a vapor, em escala reduzida, mas que realmente funcionem a vapor, com míni caldeiras tocadas a lenha ou carvão, e com capacidade de tracionar pessoas, e o próprio maquinista, embarcados sentados em cima de pequenos vagões. Este é um hobby muito difundido e praticado em Países de língua inglesa, ou de origem anglo-saxã, está no DNA deles, europeus, norte-americanos, germânicos, etc, afinal, foi com esses povos que se iniciou a revolução industrial. A reprodução de miniaturas é tão antiga quanto a própria civilização moderna, e a miniaturização das mais diversas maquinas a vapor é tão antiga quanto as próprias.
Mas afinal, o que é o Live Steam? Este texto escrito por Arnaldo Bottan, nosso grande Mestre, conta sucintamente a respeito:
"O Vapor Vivo, tradução livre para o termo em inglês Live-Steam, não se ocupa somente das locomotivas a vapor. Esse hobby engloba a construção e operação de modelos de toda e qualquer maquinária daquele período da evolução tecnológica que vai desde de meados do século XVIII até mais ou menos a Segunda Guerra Mundial. São locomotivas propriamente ditas, tratores, locomóveis, rolos compressores, automóveis, caminhões, máquinas navais, motores estacionários, bombas (burrinhos), etc. uma infinidade de tipos.
Os modelos podem ser réplicas de protótipos (as "de verdade") de locomotivas que realmente existiram ou ainda existem, pois há muitas preservadas, ou podem ser construídos sem seguir rigorosamente nenhum protótipo pré-existente. São digamos... free lance. Isso se aplica a qualquer classe de modelismo.
A literatura é praticamente toda em inglês, (boa oportunidade para aprender a língua) e hoje em dia facilmente trazida do exterior. A internet também fornece boas informações. Em nosso país, o Live Steam não conta com a infra-estrutura industrial e de lojas especializadas como já temos em outras classes de Modelismo. "
Acima, os mestres do hobby posam sobre a locomotiva "mikado". Arnaldo Bottan a esquerda e Edmar Mamminni a direita
A prática do Live Steam exige que o modelista tenha conhecimento em algumas áreas da mecânica industrial, e o domínio sobre o torno mecânico e a fresadora. Também é necessário que haja uma pequena oficina a disposição do modelista, com essas maquinas cidatas acima, um bom compressor, uma boa bancada, algumas ferramentas. Não precisa de nada padrão NASA, mas um pouco de carinho e capricho resolvem bastante dos problemas enfrentados, uma vez que não ha peças em série, 90% da locomotiva é feita de forma artesanal. Podemos ver aqui um video sobre uma oficina de Live Steam.
Diferente do trem elétrico, os modelos a vapor exigem que as locomotivas sejam maiores, por razões obvias. Por aqui, adotamos a bitola de 3 1/2" (três e meia polegadas), algo em torno de 89 milímetros. Ha uma padronização mundial, e esta bitola é uma delas, portanto, se um dia levarmos nossas locomotivas a um clube na Inglaterra que tenha linha desta bitola, poderemos rodar com tranquilidade. Existem outras bitolas, como por exemplo a de 5" ou a de 7 1/4". Estas duas ultimas são as mais utilizadas la fora, mas trazem um problema, que é o peso e o tamanho da locomotiva. Como não possuímos clubes com as linhas fixas, e uma infraestrutura para guardar as locomotivas, carrega-las e descarrega-las de maneira simples, temos que enfrentar o problema diminuindo o tamanho. As locomotivas em bitola de 3 1/2" são menores, e estão no limite do aceitável para que duas pessoas consigam carrega-las e construí-las sem dificuldade. Lembre-se que a construção é praticamente toda sozinho, como seria ter que usinar peças enormes dentro de uma "oficina de fundo de quintal", sem a ajuda de possantes talhas ou pontes-rolantes? Uma locomotiva pronta pode chegar a pesar 120 quilos nesta bitola, ao passo que em bitolas maiores o peso aumenta em uma potenciação cúbica, e não é difícil ver locomotivas com 400, 500 quilos!! A diversão fica por conta da construção das peças, e de ver a locomotiva saindo, parafuso-a-parafuso. As vezes, acontece de se ter exposições, dai pode ser montada a linha, seja numa grande reta, ou em forma de "zero" ou "oito", dependendo do espaço . Veja aqui neste vídeo como fazemos uma apresentação pública de Live Steam.
Arnaldo Bottan em cima da locomotiva 800 da Sorocabana, de três cilindros, obra prima.
Edmar Mammini ao lado de sua locomotiva 315 da Sorocabana.
Fellipe Bragion e sua bela locomotiva "Visconde de Mauá"
Os praticantes
São poucos os praticantes (conhecidos) deste hobby no Brasil. A maioria deles esta no Estado de São Paulo, mas nem todos praticam de forma universal e padronizada, o que dificulta a formação de um clube. Hoje em dia, além de criarmos e construirmos nossas próprias locomotivas, muito fazemos pela memória do vapor, como por exemplo, a recuperação de medidas dos antigos apitos para construção de suas réplicas. Existem diversos vídeos de diversos apitos restaurados e reconstruídos.
Leandro Guidini - É o autor deste site e possui uma locomotiva em bitola de 3 1/2", adquirida usada de um grande amigo do Rio de Janeiro. Esta locomotiva, que ilustra a primeira foto desta seção, pertenceu ao ilustre "Jorginho Guinle", que além de bon-vivant era apreciador e colecionador de ferreomodelismo, possuindo trens em várias escalas, incluindo locomotivas live steam. A locomotiva em questão foi construída em Londres em 1973 pela empresa "The Steam Age", e importada por Jorginho. Ela é uma 0-4-2ST, baseado na locomotiva "Edward Thomas" da Talyllyn Railway, no País de Gales. Esta maquina foi a inspiração para a criação da locomotiva Peter Sam, do universo de Thomas and Friends. Guidini adquiriu a maquina em setembro de 2022, fez diversos ajustes para que ela funcionasse, mas apenas no fim do ano de 2025 a locomotiva foi realmente restaurada, totalmente desmontada e re-pintada. Atualmente Guidini esta construindo o modelo de uma locomotiva 0-6-2T da Cia Paulista e uma pequena usina termo-elétrica.
Arnaldo Bottan - Mora na zona sul de São Paulo e pratica o Hobby desde os anos 70. Começou a se interessar desde criança, quando via as belas locomotivas a vapor da Estrada de Ferro Sorocabana passarem por sua cidade natal, Lençóis Paulista, e também por acompanhar seu avô pelos diversos engenhos de açúcar e aguardente, arrumando todo o tipo de maquinaria a vapor. Quando jovem, viu em uma publicação de uma revista a foto de uma pessoa sentada em uma pequena locomotiva a vapor, e se interessou profundamente com enorme paixão por aquilo. Tempos depois, adquire seu primeiro torno e fresadora, e começa na casa de seus pais, em São Caetano do Sul a construção de sua primeira locomotiva, uma mikado, totalmente fora de qualquer padrão, que fora feita nas horas vagas e folgas do trabalho. Esta pequena locomotiva foi vendida, e anos depois voltou para sua mão, para ser reformada pelo novo dono. De la pra cá, a dedicação e o conhecimento no hobby lhe renderam muitos modelos fantásticos fabricados por ele e, no momento, dedica-se ao termino da construção de uma réplica fiel das possantes locomotivas de três cilindros série 800 da EFS.
Edmar Mammini - Desde criança Mammini demonstrou talento para a mecânica. Ainda muito jovem construiu um motor a vapor apenas com lima e uma furadeira. Mammini é um Expert em modelos navais, construiu inúmeros barcos, a vapor e elétricos, modelos de maquinas agrícolas, locomotivas e tratores a vapor. É o único steamer conhecido no País a possuir uma ferrovia elevada de jardim, em sua casa na zona oeste de São Paulo. Mammini é versátil e muito hábil. Infelizmente falecido em 10/06/2021.
Fellipe Bragion - Engenheiro químico, mora em Santo André e construiu uma Conway. Batizada de “Visconde de Mauá”, em homenagem ao pai da ferrovia brasileira. Muito caprichoso e detalhista se dedica por longas horas em sua oficina para que suas técnicas sejam cada dia mais bem aprimoradas e que a qualidade das peças seja sempre crescente. Atualmente dedica-se a construção de um belo locomóvel.